domingo, 21 de setembro de 2008

À Esquerda e em Frente

Marcelo Mário de Melo

Discordo da opinião de que Lula já cansou, de que votar em Lula pela terceira vez foi demais, e de que, na próxima eleição presidencial, terá que ser lançado outro nome. Cansou mesmo? Terá mesmo? O fato é que, em termos quantitativos e qualitativos, a esquerda brasileira veio avançando eleitoralmente com Lula, nas três últimas campanhas presidenciais. E uma quarta candidatura de Lula não deve causar nenhuma preocupação especial. François Miterrand, na França, e Salvador Allende, no Chile, ganharam na quarta tentativa. Até essas vitórias, aqueles dois países vinham vivendo processos de normalidade institucional. Como no Brasil tivemos o período prolongado de ditadura, podemos dar uma carência democrática e continuar tranqüilos, acumulando forças com Lula em campanhas presidenciais futuras. Isto, sem nenhuma adoração obreirista ou partidária por Lula. Simplesmente, porque ele tem sido aquele representante da esquerda que vem agregando o maior volume de forças e de votos no embate eleitoral com a direita.
Se amanhã aparecer na esquerda um candidato - ou uma candidata - com possibilidade de melhor desempenho do que Lula, que se pense em substituí-lo. Mas que se pense dez vezes. Porque o peso eleitoral que Lula hoje concentra é o resultado do investimento num projeto político que já começa a contar décadas e vai avançando por cima de pau e de pedra. E convém não atirar fora a criança, junto à água da banheira. Aos que pretendem continuar caminhando com mais profundidade e amplitude, é importante não permitir que se desmonte o palanque de Lula de maneira inconseqüente. Isto porque, o eleitorado brasileiro vem reafirmando o nome de Lula como um importante segundo colocado na disputa à presidência. E é preciso ser responsável na estratégia eleitoral.

Também não é aceitável a rejeição a Lula, nem o clima de desânimo, a partir das derrotas eleitorais passadas. Afinal de contas, uma eleição perdida, por mais importante que seja, não é o fim do mundo. O processo político, ou o processo histórico (lembrai-vos dele!), é muito mais abrangente . E para o militante de esquerda, é de extrema importância psicológica assimilar a diferença e a contradição insolúvel entre os prazos da biografia individual e os prazos do processo histórico. Os primeiros, contados ano a ano. Os segundos, medidos por décadas e séculos. Sem essa postura, a participação política é tomada como se as suas curvas corressem mais ou menos paralelas aos ciclos da vida do indivíduo. Encaram-se conjunturas e campanhas com o espírito dos investimentos a curto prazo. Ou das corridas de cem metros rasos. E tudo vai bem, enquanto as situações são mais ou menos favoráveis. Mas nos momentos de derrota ou descenso, o risco é predominar o clima dos Quatro D: Desencanto, Desinteresse, Desmobilização e Decadência. A escala pode variar de A a Z, ou exigir a recorrência aos números negativos, geralmente necessários em casos de mudanças de lado e adesões ao bloco dominante, por parte dos que formam a esquerda de quem vem, direita de quem vai, cujo símbolo é um camaleão com fita adesiva.

Com relação à candidatura de Ciro Gomes, o ideal é que ela assuma, de fato, uma característica de centro-esquerda, e não de nova alternativa à direita, segundo o modelo já exercitado em dose dupla, através da aliança PSDB-PMDB-PFL, em torno do nome de Fernando Henrique Cardoso. Uma candidatura de esquerda, uma de centro-esquerda e uma de direita, poderão representar um importante avanço político no Brasil, trazendo também mais complexidade e sutileza ao processo eleitoral. E aí, aumentam os desafios à sabedoria política das forças organizadas em torno da candidatura de Lula, que precisam saber articular muito bem os elementos flexibilidade e firmeza.

As questões de estratégia e tática não podem ser tratadas pela esquerda brasileira com imediatismo e primarismo. No caso, os buracos são muitíssimo mais em baixo, sendo conveniente identificá-los e tapá-los, porque muita água vai passar pela ponte. E muita água poderá, ainda, minar para o barco da esquerda e do povo.
Publicado no Jornal do Commércio, Recife-PE

Roliúde de Homero e Bibiu

Marcelo Mário de Melo

No seu romance Roliúde, picaresco, cinematográfico, Homero Fonseca deu vida a Severino Ramos Soares da Silva, Bibiu, “calculadamente nascido” em 1911, “mulherengo, enrolão, devasso, estróina, pobretão, raparigueiro, mentiroso e chachaceiro”, de quem se tem a última notícia com 85 anos de idade, terminando de contar sua história no ano de 1996.

Bibiu assistia filmes e os contava em rodas que formava em ruas, feiras, bodegas, puteiros e casas de família. No livro aparecem as suas narrativas de Em Busca do Ouro, Casablanca, E o Vento Levou, O Ébrio, Sansão e Dalila, King Kong, A Dama das Camélias, No Tempo das Diligências, Tarzan, o Rei da Selva e Aviso aos Navegantes. Sendo essa sua atividade principal, ele também foi locutor de parque de diversões e de circo, homem da cobra e mago de tarô com o nome de Bibiukoviski.

O personagem viveu o encantamento inicial da sétima arte e das linhas férreas, ficando aí demarcado o tempo das suas presepadas e o campo das suas preferências, pois para ele as três coisas melhores do mundo eram mulher cinema e trem. Bibiu é habitante do interior de Pernambuco e a narrativa é marcada por um saboroso saltitar de palavras matutas, muitas delas caídas em desuso. Mas no romance de Homero não aparecem as marcas chapadas do cangaceirismo, do bucolismo e do passadismo. Ele se situa na atmosfera típica dos interioranos que convivem nos centros das cidades, os pracianos, ou os suburbanos das capitais. Os cenários comuns são a feira, o trem, a bodega, a praia, o cais do porto, a igreja, o fiscal, a polícia, o quartel, o puteiro, a família. Afirmando as inclinações cosmopolitas, as andanças de Bibiu incluem episódios que se desenvolvem no Recife e em São Paulo, onde se torna torcedor do Coríntians e amigo de um comunista corintiano que termina preso, torturado e desaparecido.

A trajetória de Bibiu é uma seqüência de trapolinagens e presepadas com tintas de cordel, circo, cameloagem, programa de rádio e chanchada, envolvendo as punhetagens e os sarros de adolescente, o serviço militar, a galinhagem de adulto, o casamento, a traição, a cornice, a carolice, a mexericagem, a vingança de corno brabo e algumas acontecências da política, como a revolução de 1930, o Estado Novo, Getúlio Vargas, o levante de 1935, o segunda guerra mundial, a presença norte-americana em Pernambuco e o impacto da coca-cola, bebida predileta do padre da Igreja de Santo Antônio da Consagração, que a usava na missa em lugar do vinho e só foi descoberto por causa dos arrotos na hora do sermão.

O filósofo Bibiu navega nas vielas onde vive “o povinho temente a Deus e ao Governo”, de onde recolhe os elementos da sua filosofia, que vai destilando ao longo da história. E vão aqui algumas pérolas:

Sobre o ofício de viver: “uma desgraça de condição humana...iguala tudo: branco e preto, moço e velho, principal e pequeno”; o diabo é sacana: cutuca a gente e depois desaparece, rindo um riso malino da nossa aflição; “na hora do perigo, santa e puta é tudo igual”; depois do Bem vem sempre o Mal e depois do Mal o bem, feito roda-gigante; por mais ruins que estejam as coisas, sempre podem piorar; com governo, polícia e mulher baixinha não se brinca; guerra é guerra, e é onde a gente morre não se enterra;

Sobre amor e mulher: as mulheres são cheias de artimanhas, muitas vezes parecem querer ir pro norte quando querem ir pro sul; fico mais balançado vendo uma nesga de coxa do que quando me deparo na praia com aquela danação de mulher quase nua, mostrando as femeíces para todo mundo ver. Bom mesmo é a gente ver um pedacinho e desenhar o resto na cabeça”; peguei a calcinha, atochei no nariz e respirei fundo. Aquele cheirinho meio salgado, meio azedo, meio quente, meio morno, acendeu a minha venta como se eu tivesse tomado um porre de lança-perfume Rodouro.

Sobre cornos e cornice: Essa igreja aí, seu Bibiu, é a maior fábrica de corno que eu conheço; se isso não for chifre em pensamento, pelo menos é perigo de traição; esse negócio de chifre entroncha qualquer um, me desculpem a sinceridade; nem todo mundo que bebe é corno, mas todo chifrudo enche a caveira pra agüentar o rojão; são demais os perigos dessa vida pra quem se mete com mulher de corno brabo;

fazia uns carinhos experientes
a moda agora é chamar frango de homosexual; um dinossauro, um bicho horroroso do tempo antigo, desses que Noé não embarcou na sua barca; um usineiro que gastava com as putas numa noite o que não pagava de salário por mês de labuta dos seus trabalhadores;ora, Bibiu, bunda não tem pátria;

Veja só como tem gente ignorante nesse mundo, querendo estragar uma boa história por detalhezinho de nada;

a senhora não está nem no antes nem no depois, mas no tempo doe exatamente;

conheci pessoas principais, gente importante e intelectual;

Macaco velho e escolado, Bibiu não iria vacilar na hora que decidiu escrever a sua história. Seguindo a sua filosofia, foi atrás de Homero Fonseca, pois sabia que ele tinha “olho treinado, paciência e interesse”. Em Roliúde se lê que “o grande escritor de folheto, horoscopista e almanquista Jota Ferreira de Lima, dizia que o povo tem necessidade de história como tem necessidade de comer e beber”. A história de Bibiu/Homero é mais do que necessária e faz muito bem comê-la e bebê-la.

O Solidário Dom Penido

Marcelo Mário de Melo

Quando cheguei na Casa de Detenção do Recife, em junho de 1971, vindo da fase de interrogatórios no Dops e em quartéis, num dia de visita aos presos políticos conheci D. Penido, então abade do mosteiro de São Bento. Na maioria das vezes ele estava ao lado da freira Margarida Serpa (Peggy), superiora da ordem do Sacré Coeur e integrante da equipe de D. Hélder. Dom Penido também ia ao presídio feminino do Bom Pastor e a quartéis onde se encontravam outros companheiros.Durante todo o período da ditadura militar os presos políticos de Pernambuco contaram com a sua solidariedade em diversos níveis:a ajuda material, a divulgação de documentos de denúncia, a articulação junto à CNBB e às entidades comprometidas com a defesa dos direitos humanos, no Brasil e no exterior. Já em liberdade, em 1980, mantive contato com o abade em busca de apoio para um fugitivo de ditadura latino-americana. Como sempre, a sua solidariedade se manifestou.

Nas longas conversas com D. Penido, às vezes sabíamos de detalhes de articulações e contatos feitos por integrantes da CNBB, no trabalho penoso de tentar localizar um preso ou descobrir as teias que pudessem revelar o itinerário de algum desaparecido. Sem ser de esquerda e contrário às ações armadas, ele assumia uma atitude antiditatorial nítida e mostrava interesse em conversar e aprofundar discussões com aqueles que visitava, na sua maioria, marcados pelo marxismo-leninismo e defensores da resposta violenta à ditadura. Era visível, da sua parte, uma atitude de abertura e entendimento. De perquirição, para falarmos em consonância com a sua condição de estudioso e erudito.

Dom Penido levava notícias de um presídio a outro e, às vezes, trazia alguma correspondência. Numa dessas ocasiões, foi portador de uma colagem de Cláudio Gurgel, que se encontrava recolhido com Mário Miranda no Esquadrão de Cavalaria, no Bonji. Quando passou pela revista a que eram submetidos os visitantes na portaria da Casa de Detenção, a colagem foi exposta pelo policial e ele se surpreendeu com o seu conteúdo, reclamando depois ao remetente: “Mas Cláudio, mandar uma coisa daquelas!”. Tratava-se de uma peça composta por letras aplicadas sobre a foto de uma bela bunda de mulher, formando o poemeto:

“Ateus, ateus
amigos meus
este poema
é de Deus”.

Na visita do Natal de 1971, D. Penido foi chegando sorridente, na área da visita, com uma garrafa de vinho na mão, nos oferecendo. Surpreendidos, perguntamos como tinha conseguido a façanha. ‘Foi muito fácil - esclareceu. Eu trouxe duas garrafas, e quando abri a bolsa, tirei logo uma e disse ao guarda: esta é a sua”.

Na Penitenciária Professor Barreto Campelo, para onde os presos políticos foram transferidos em outubro de 1973, com a desativação da Casa de Detenção, o abade também se fez presente. Dessa vez, tendo de passar pelo ritual a que eram submetidos os visitantes de todos os sexos e idades: ficar completamente despido. Coisa que ele tirou de letra, dizendo que, quando era rapaz, fazia natação num clube no Rio de Janeiro e, no banheiro coletivo, os rapazes tomavam banho e circulavam nus, com toda naturalidade.

O contato mais próximo com as prisões, as torturas, a perseguição política e o sofrimento dos familiares dos perseguidos, marcaram profundamente D. Penido. Já em liberdade, numa fala sua em cerimônia de casamento, ouvi-o ressaltar este aspecto, adiantando que usava (ou possuía) uma medalha com a inscrição: eu estive na prisão.
Falando explicado e elegantemente - a voz parecida com a de Jô Soares - nas palavras e nos gestos precisos, D. Penido transmitia uma firmeza refinada. Na sua vida ele somou para o alargamento das vias democráticas, da solidariedade e do ecumenismo: quando na relação entre as pessoas são colocados, em primeiro plano, os lençóis d’água comuns à condição humana e ao cosmos, e não os muros e as fronteiras erguidos na superfície.

Parafraseando o poeta Drummond, faço do fundo do coração esta última e retardada homenagem ao homem de boa vontade. Solidário Abade Dom Basílio Penido Burnier: eu, ateu, faço o sinal da cruz em sua consideração.

Publicado no Jornal do Commércio, Recife-PE

O Acanalhamento da Crítica

Marcelo Mário de Melo

“o rigor, primeira condição de toda crítica”
(Frederico Engels)

Ninguém é obrigado a gostar deste ou daquele produto cultural, seja pintura, escultura, filme, peça teatral ou livro. E todos possuem o igual direito de expressar o seu gosto, entrando em detalhes ou, simplesmente, afirmando a satisfação ou a rejeição.

Mas há uma categoria de cidadãos a quem é exigido, quando se manifesta, deixar explícito em que se fundamenta a sua opinião para qualificar, por exemplo, um livro, como ruim ou bom, significativo ou dispensável. Ela é constituída por críticos de cultura, críticos literários, jornalistas e todos os que recebem o encargo de escrever uma resenha ou um comentário num veículo de comunicação social.

A estes, fundamentar as opiniões é uma exigência elementar, de caráter técnico e ético. Mas parece que não é este o receituário da revista Veja, pelo menos se considerarmos o comentário irresponsável realizado por um redator anônimo na seção de resenha na edição de 03/04/00, tendo como objeto o livro “Maquiavel - O Poder”, de autoria do publicitário pernambucano José Nivaldo Júnior, publicado em segunda edição pela Editora Martin Claret e que tem figurado nas listas dos mais vendidos de revistas e jornais de âmbito nacional como Veja, Isto É, Exame e Jornal do Brasil.

Num determinado momento, o redator oculto revela discordar da afirmativa de José Nivaldo de que O Príncipe de Maquiavel é “um manual do que hoje denominamos marketing político.” Imaginamos que, a partir desse núcleo, viesse a ser estruturada uma crítica, ou ao menos levantados alguns argumentos enriquecedores no plano teórico. Mas isso não ocorre.

Revelando total descompromisso com a função social da crítica e incorrendo no terreno do simples “verbalismo raciocinante”, o autor passa a taxar o livro de “um frankestein... um livro desconjuntado, que não diz ao que veio nem para onde vai”. E continua o ensaio de vulgaridade, com o assassinato da língua portuguesa – desta vez em alto nível - numa frase que exige o exercício da decifração: “Se o publicitário pretende apenas repetir os conselhos que ele dá aos governantes, para que lê-lo?”.

O que o redator oculto quis dizer foi o seguinte:” Se José Nivaldo pretende apenas repetir os conselhos que Maquiavel dá aos governantes, para que se ler José Nivaldo?. Decifração concluída, é de se lastimar que o domínio da língua não seja também um componente essencial exigido dos que fazem resenhas de livro em publicações de âmbito nacional.

Na conclusão do texto, o redator oculto revela a face da canalhice, quando escreve o seguinte: “Afinal, se existe um consenso a respeito de Maquiavel , é que ele era um ótimo escritor. Ao contrário desse autor fajuto chamado ... Nivaldo, Geraldo? Como é fácil esquecer o nome desse sujeito.” Ora, quem escreve tão tropegamente, derrapando nos pronomes e colocando vírgula entre sujeito e predicado, não pode se dar ao desplante de avaliar a qualidade literária do texto de ninguém.

E desde quando o nome de um autor passa a ser parte integrante da crítica da sua obra?. Fica a especulação sobre se essa crítica ao livro de José Nivaldo Junior expressa a presença ou a articulação de algum desafeto ou concorrente ressentido, ou se constitui mais um exemplo fascistóide do preconceito contra nordestino.

Precisamos de uma crítica de cultura rigorosa e frontal, que se exerça acima e além de simpatias e antipatias pessoais, e não dessa modalidade de crítica de sarjeta, que despeja dejetos através de um sujeito oculto.

A Resistência de Cândido Pinto de Melo

Marcelo Mário de Melo

“Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou”
(Ferreira Gullar)

Cândido Pinto de Melo tinha 22 anos de idade, estudava engenharia no Recife e era presidente da UEP – União dos Estudantes de Pernambuco, entidade cassada pela ditadura e reestruturada pelo movimento estudantil em eleições diretas. No dia 28 de abril de 1969, nas imediações da Ponte da Torre, sob a mira de um atirador mascarado, foi intimado a entrar num carro. Reagiu e salvou a vida. Um disparo do bandido lhe seccionou a medula abaixo do peito. A partir daí, até a sua morte na sexta-feira, Cândido viveu 33 anos de uma resistência política e existencial tenaz e tocante, que o colocam num plano elevado da condição humana.

De repente, encontrava-se paraplégico aquele militante aligeirado no andar, mergulhado nas falações em assembléias e passeatas, nas correrias de rua e nas articulações clandestinas. Ante essa nova condição, ele empenhou-se para mobilizar ao máximo as forças disponíveis. No tratamento em São Paulo, viu a possibilidade de utilizar uma espécie de armadura, que lhe permitiria andar com muletas alguns metros. Os especialistas não admitiam que o equipamento fosse utilizável no seu caso. Teve de recorrer a cálculos físico-matemáticos para convence-los.

Cândido terminou o curso de engenharia respondendo a processos pela Lei de Segurança Nacional, vendo as invasões policiais nos hospitais e na sua casa, com os amigos e familiares sendo revistados, ameaçados e perseguidos. A vivência hospitalar levou-o a se especializar na engenharia biomédica. Tornou-se um profissional respeitado nessa sua área, compôs a equipe do Dr. Jesus Zerbine e era funcionário do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Foi um dos fundadores da Associação de Bioengenharia Brasileira.

Na cadeira de rodas, Cândido continuou seguindo sempre à esquerda. Integrou-se ao movimento pela anistia, ingressou no Partido dos Trabalhadores, atuou no movimento dos portadores de deficiência e foi fundador da sua entidade nacional. Procurava acompanhar o debate em torno do projeto socialista e do pensamento marxista, a que se mantinha alinhado.
Quando veio ao Recife em 1999, denunciar os 30 anos de impunidade do atentado que sofreu, Candido publicou um longo artigo (JC de 18/4), fazendo uma retrospectiva da resistência contra a ditadura e se posicionando politicamente na atualidade.
São suas palavras: “Dos governos militares ao neoliberal de hoje, as necessidades da grande maioria da população sempre foram excluídas das prioridades e as políticas públicas sempre foram voltadas aos interesses das elites e oligarquias nacionais e regionais. Estas oligarquias estiveram no poder na ditadura e mantêm-se hoje no poder, graças a alianças que lhes fornecem o ‘oxigênio’ necessário à sobrevivência política”.E arremata: “...enquanto continuarem a miséria e a desigualdade, o sonho continua e sempre se saberá de que lado ficar”.
Quando o governo da Frente de Esquerda do Recife o chamou para assumir a direção da Empresa de Processamento de Dados do município, Cândido licenciou-se do Hospital das Clínicas, voltou à terra e assumiu a tarefa.

A dramaticidade, a dignidade e a grandeza da vida de Cândido Pinto de Melo, vítima de um atentado na condição de presidente de uma entidade estudantil proibida, não permite a sua utilização, hoje, como objeto de malversação política por parte de pessoas que, na época, ocupavam funções importantes nos governos biônicos ou na representação parlamentar da ditadura.

Cândido sempre manteve a denúncia do atentado que sofreu e da teia de solidariedade criminosa que se construiu para preservar os responsáveis e ainda hoje se faz presente para impedir, ao menos, o esclarecimento factual do caso. Mas a consciência de vítima e a atitude de denúncia não o transformaram numa pessoa obsessiva, mórbida, retraída, centrada em si mesma e movida a bílis.
Encarando as suas circunstâncias, ele desenvolveu uma resistência construtiva, procurando fruir o mais plenamente possível o arco-íris da vida. Dedicou-se ao tratamento médico permanente, à formação profissional, à militância, às amizades e à vida afetiva. Casou-se com Joana Figueiredo e construiu com ela uma família formada pelos filhos Ana Luiza e Bruno. Quando morreu, vivenciava a condição de avô do menino Lucas, com cinco meses.

Depois do atentado, a vida de Cândido foi um permanente transitar por hospitais, enfrentando infecções e cirurgias, consumindo dosagens elevadas de medicamentos pesados. Nos últimos tempos, submeteu-se a uma cirurgia, passou por UTIs e colocou um marca passo, sofrendo um abalo físico impressionante. Até que, aos 55 anos, trabalhou dois expedientes, foi ao teatro, jantou com a mulher, os filhos e os irmãos Cláudio e Celso.Em casa, deitou-se para dormir e morreu de embolia pulmonar na primeira hora do sábado 31 de agosto.

A história que Cândido Pinto de Melo escreveu nesses 33 anos toca fundo e faz com que, na perda e na lembrança, os momentos de convivência com ele cintilem como jóias raras. Na última ceia, Cristo ofereceu aos apóstolos o pão e o vinho, como se fossem o seu corpo e o seu sangue. Que o exemplo de Cândido também nos alimente, para enfrentarmos as dificuldades individuais e políticas e mantermos o rumo na construção de um Brasil e de um mundo onde predomine a vida em abundância, por que ele tanto lutou.
Publicado no Jornal do Commércio, Recife-PE

Anselmo e a Democracia

Marcelo Mário de Melo

O Caso Anselmo coloca para os democratas brasileiros questões mais importantes do que a polêmica secundária em torno da concessão dos seus direitos de anistiado, assegurados pela sua simples condição de militar cassado e expulso das forças armadas.

Levanta-se a hipótese de que Anselmo já era um agente infiltrado da direita no movimento popular, desde 1964. Mas também é possível um processo de degenerescência posterior, que resultou na sua atuação como traidor a serviço dos organismos de repressão da ditadura, gerando prisões e mortes de dezenas de militantes, inclusive, da sua própria companheira, com um filho seu na barriga. Também esta uma questão secundária.

O caráter repelente de Anselmo nesse segundo momento da sua vida é acentuado pelo cinismo das suas declarações atuais, tentando justificar o injustificável. Ele se coloca em julgamento político-ideológico e ético ante as forças de esquerda, a opinião pública e a história. O que também é uma questão secundária.

E vamos ao fundamental.

O Caso Anselmo coloca em questão a famigerada “Anistia Recíproca” brasileira, absolvendo sem julgamento os mandantes, praticantes e auxiliares do sistema de torturas, civis e militares, que continuam impunes e encastelados nas instituições republicadas, notadamente nas forças armadas, falando em democracia e cidadania. Isto é o que alimenta a sem-cerimônia de Anselmo.

Em outros países latinoamericanos que passaram por ditaduras, como o Chile e a Argentina, os generais torturadores ainda são colocados no banco dos réus, depois de revogada a legislação que os blindava. É esta diferença que permite, no Brasil, assistirmos Anselmo desfiar impunemente o rol dos seus crimes.

O fato é que, desde a queda do império, nunca depuramos a nossa república da tutela militar, eterna fonte de golpes-de-estado e intimidação sobre o poder civil. Veja-se, por exemplo, a autonomia dos comandos militares na reiterada comemoração, ainda hoje, do golpe de 1964, incensado nos quartéis como revolução libertadora. Lembrem-se da acintosa e ainda recente queima de arquivos de organismos militares e da não apuração das responsabilidades a respeito. Pensem na empedernida insistência em não abrir os arquivos secretos da repressão ditatorial. Considerem a manutenção, ainda hoje, da medida provisória de Fernando Henrique Cardoso que permite o adiamento sine die do acesso público a esses arquivos. Constatem a fragilidade do nosso ministério da Defesa.

Que se coloquem na pauta democrática a não conciliação com a tortura, a abertura dos arquivos da repressão ditatorial e o pleno controle do poder civil sobre os comandos militares.

É necessário no Brasil colocar a tortura como crime hediondo e quebrar a prévia isenção de culpa dos torturadores de todas as épocas. Sem isto, e agora falando em termos de presente e de futuro, estaremos avalizando a manutenção do sistema de torturas que hoje ainda vigora nas instâncias policiais e penitenciárias, além da violência policial generalizada, atingindo principalmente, como no passado, os pretos e os pobres do País, ou a maioria dos pobres, pretos e brancos.

Precisamos também enfrentar o corporativismo militar, o mais pernicioso entre todos, porque intimidatório e armado. E que possui historicamente um lastimável saldo negativo, cujas manchas de sangue não podem ser apagadas e é preciso que sejam reveladas. A reforma militar se coloca, portanto, na ordem do dia, devendo operar numa linha dupla. Por um lado, modernizando e fortalecendo as forças armadas, para que elas possam cumprir as suas funções de defesa das nossas fronteiras e das nossas instituições republicanas. Por outro lado, estabelecendo sem nenhuma margem de dúvida a obediência ao poder civil e a não ingerência dos comandos militares nos assuntos políticos.

Ante o debate suscitado pelo Caso Anselmo, os militantes de esquerda, principalmente aqueles que foram presos, torturados, e carregam depoimentos sobre presos políticos mortos e desaparecidos, têm a responsabilidade de manter a racionalidade política e a postura republicana, colocando em primeiro plano as questões que são fundamentais para que se construa, no Brasil, algo que mereça ser chamado de República Democrática.






David Capistrano Filho: saga e sonhos da juventude

Marcelo Mário de Melo

“O amigo é um momento de eternidade”
(Nelson Rodrigues

Era uma vez um menino chamado David Capistrano da Costa Filho, que nasceu no Recife no dia 7 de julho de 1948 e morreu na cidade de São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês, em 10 de novembro de 2000.
Em 1947, sendo presidente do Brasil o Marechal Dutra, tinha havido a cassação do registro do Partido Comunista. E como os pais de David – David Capistrano e Maria Augusta – eram comunistas, tiveram que fugir e viver na clandestinidade. O menino David, portanto, foi um comunista de nascença. A partir de 1956, com Juscelino Kubitschek na presidência do Brasil, os comunistas passaram a viver uma semi-legalidade. A família Capistrano saiu dos esconderijos pelo sul do País e voltou a morar no Recife.

Em 1962, com 14 anos de idade e estudando no Colégio Estadual de Pernambuco, Davizinho entrou na base comunista que ali funcionava, formada por 25 jovens. Depois dos 17 anos, David morou nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, onde casou duas vezes, teve quatro filhos, foi líder estudantil, médico, jornalista militante, autor e editor de livros, articulador político, conferencista, secretário municipal de saúde, prefeito de Santos, consultor do Ministério da Saúde, sempre viajando pelo Brasil e pelo exterior. Mas essa parte da sua história é muito conhecida. E eu quero destacar aqui, com o coração lagrimando tristeza e saudade, a fase infanto-juvenil de David Capistrano Filho em Pernambuco.

As maiores amarguras e aventuras políticas de David começaram em 1964. No dia 1O de abril houve um golpe de estado no Brasil e foi metralhado numa passeata o seu maior amigo, Jonas Augusto, que tinha 19 anos e era companheiro da base do Colégio Estadual. Também morreu Ivan Aguiar, estudante de engenharia e comunista, além de um rapaz e uma moça nunca identificados. David pai fugiu, Maria Augusta foi presa na polícia e Davizinho recolhido a um quartel do exército.Um dia o coronel Ibiapina parou na sua cela e disse: “A culpa da sua prisão é do seu pai, um comunista irresponsável”. Davizinho respondeu: “Meu pai é um homem bom e honesto”. O coronel mandou que lhe tirassem o colchão, fazendo-o dormir no chão. Durante alguns dias repetiu a mesma pergunta e recebeu a mesma resposta. Davizinho terminou sendo transferido para o Juizado de Menores, preso entre meninos infratores. Libertado, tinha-se consumido o semestre escolar e ele se concentrou nos estudos para passar de ano no Colégio.

Depois do golpe, David intensificou a atuação política: rearticulando o setor secundarista, publicando jornais, fazendo pichações e panfletagens e participando das infindáveis discussões internas do PCB, em torno da interpretação do golpe e dos rumos a seguir na nova conjuntura política. Em 1965 ele participou de um concurso estudantil de oratória, com o tema da prostituição. No final desse ano David saiu de Pernambuco com Maria Augusta e as irmãs, Cristina e Carolina. A família ia se reunir com o pai.E David procurava escapar das garras do coronel Ibiapina, que havia prometido lhe prender quando completasse 18 anos. No Recife, David também atuou no Clube Literário Monteiro Lobato e na Associação Literária Machado de Assis, entidades juvenis.

Do Rio, David começou a se corresponder com um companheiro da base do Colégio Pernambucano, com quem fez amizade e atuou intensamente no período posterior ao golpe militar. Ele usava o pseudônimo de Jansen e, o amigo, o de Radiel. Trocaram dezenas de cartas, de janeiro de 1966 a julho de 1968. Os dois fizeram opções políticas diferentes dentro da esquerda, encontraram-se em plena divergência e mantiveram a amizade. Radiel foi feito preso político em Pernambuco e, num dia de visita, na década de 70, recebeu do amigo Jansem, pelas mãos de uma amiga comum, uma cartinha indicando a seqüência para a deglutição competente de uma cesta de doces, bolos, queijos, cremes e guloseimas que lhe enviava de São Paulo. Depois de 1979 os dois amigos se reencontraram, trocaram novas cartas e passaram a se ver sempre que podiam, morando em estados diferentes. No dia 12 de julho de 1982, atacado de leucemia, David fez um tratamento com cobalto e escreveu do hospital: “Continuo batalhando aqui no meu leito de doente. Já são 19 dias de internação. Já estou quase careca. Mas melhoro. Confio que irei para casa dentro de uns dez dias, mas ou menos. Acho que vou ficar bom. Não me sinto fadado a morrer jovem”.

Lendo-se as cartas de Jansen para Radiel, pode-se ver que, do adolescente ao homem maduro, David Capistrano filho manteve uma linha de coerência e compromisso com as suas referências fundamentais – a esquerda, o socialismo, a democracia, o povo, a saúde pública, a arte, a cultura, a família e a amizade. Ainda conversei com ele por telefone, no seu leito de doente, depois do transplante de fígado, logo após os resultados das eleições municipais. Ele estava vibrando com a chegada de João Paulo ao segundo turno no Recife e falou em fazer uma gravação de apoio.

E agora dou a palavra ao próprio David, com citações de suas cartas:

“Plantaremos mangueiras, caramboleiras, belos laranjais. Haverá frutas com fartura, verduras, cereais, legumes, milho a perder de vista, arroz e todas as coisas boas e bonitas” ( janeiro de 1966)

“a minha esquerda é aquela alegre, amante da vida e de suas boas coisas- o vinho, a comida, as mulheres (ou os homens), as crianças e as brigas”

“Sem generosidade, vamos para o buraco” (abril de 1982)

“A comunicação - colaboração – compreensão é a coisa mais maravilhosa que existe!” (janeiro de 1966)

“Só me sinto homem, radicalmente distinto de todos os animais, na condição de amigo. A mais alta e a mais dignificante das condições: amigo. E comuna. Amigo, amigo-comuna, comunas.” (março de 1966)

“. franqueza é a grande arma com que se conquistam as grandes amizades. Sejamos, pois, bem francos um com o outro” (julho de 1966).

Na sua última cirurgia, David Capistrano Filho, que tanto reverenciava a amizade, recebeu a doação de meio fígado do médico Davi Rumel, que nesses tempos cinzentos de cólera plasmou com generosidade e afeto uma história de amigos figadais.

Publicado no Jornal do Commércio, Recife-PE, Ed 6/12/2001